MUDE O TOQUE DO TELEFONE

Sons, odores e sabores podem nos remeter ao passado. Fazendo-nos lembrar tempos idos, experiências vividas. Por vezes boas e por vezes ruins. Eu, por exemplo, não gosto do perfume de certo tipo de flor porque me lembra da infância, quando, obrigado que fui, acompanhei meus pais aos primeiros velórios. Não eram experiências interessantes. O perfume da flor ficou associado à morte. Pobre flor; que culpa tem? Pela mesma razão tem gente que não gosto do cheiro de vela se queimando.

Há pessoas que não gostam do cheiro e muito menos de certo tipo de alimento (canja) porque lembra hospital, dor, solidão e sofrimento. Outros tantos se sobressaltam quando escutam o sino da igreja no meio da manhã ou da tarde. Quem será desta vez? Outros não querem nem ouvir determinados hinos pelas lembranças tristes que despertam. Há coisas que, naturalmente, é melhor evitar. Outras a gente tem que aprender a enfrentar. Por vezes é necessário  tomar desvios ou  ir por atalhos. Não é, por exemplo, muito interessante  guardar por muito tempo objetos que nos causam grande sofrimento pela lembrança de alguém que amávamos e que já seguiu pela trilha da eternidade.


Em tempos mais modernos, devo dizer que não gosto do som do telefone, sobretudo no silêncio da noite. Pois, raramente, nos desperta para nos dar boas notícias. Eu tive um celular com um toque bem característico. Muitos “tocam” assim. Eu já nem o tenho mais, mas cada vez que ouço o som por aí, me sobressalto. Quem tem filhos ou filhas, amigos, amigas, por aí na cidade grande está sempre dormindo com um olho aberto. Dorme com medo de acordar com o toque do telefone. Que, por associação ou por experiências dolorosas do passado, desperta temores, tristezas.

Alguém mais sábio poderia mudar o som do telefone. Isso pode ajudar, mas não pode trazer a ilusão de que um toque alegre ou diferente não possa vir carregado de espanto. De uma parte, era bom quando uma cartinha chegava três semanas mais tarde. De outra parte, de nada adianta- há depressões que temos que percorrer. Nunca se está totalmente preparado. É claro que não adianta sofrer por antecipação, nem apenas mudar o toque do telefone. É necessário cuidado, moderação e sabedoria para viver na cidade grande.
Necessitamos fortalecer a confiança, redobrar o cuidado e seguir com a esperança de que ainda que “andemos pelo vale da sombra da morte, nenhum mal nos sobrevirá”.  Quando vier e se vier- vamos ter que superar. Pois, ainda que não rodeados por pessoas, nunca estaremos sós!!

O toque do telefone é possível mudar. O que ele desperta em nós, nem sempre. Pense nisso.

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